quarta-feira, 14 de maio de 2008

A divina comédia

Dante Alighieri

Nunca é tarde demais para se ler um clássico...

Até onde você iria em busca de sua amada? Dante foi até o Inferno, onde, guiado pelo poeta romano Virgílio, divisou os sofrimentos das almas cativas, inquiriu-as acerca de seus pecados; percorreu o Purgatório, chegou até o Paraíso, onde Beatriz finalmente é encontrada e lhe revela os mais sublimes mistérios de Deus e da Criação.

Em plena idade de ouro do mundo medieval, a Florença do século XIII é um rico centro cultural, a mais importante cidade da Itália central e berço do poeta Dante Alighieri.

Escrito entre 1307 e 1321, A Divida Comédia é sua obra-prima, e nela Dante relata seu desenvolvimento espiritual e concentra a atenção do leitor para a vida após a morte. Obra em forma de poema épico, rigorosamente simétrico e planejado, o livro narra uma odisséia pelo Inferno, Purgatório e Paraíso, descrevendo cada etapa com detalhes incríveis, quase visuais.

A Divida Comédia é um clássico obrigatório para todo o tipo de público, não só por ser considerada pelos críticos uma das melhores obras da literatura mundial, mas também por sua engenhosa sabedoria e erudição, uma síntese do pensamento medieval que, creio eu, tenha muito a ensinar ao pensamento pós-moderno...

domingo, 20 de abril de 2008

Marketing para livros?

A palavra marketing quer dizer “mercado em movimento”, mais especificamente, marketing é a promoção de um produto. Por vezes, o sucesso nas vendas de um produto é tão somente garantido pelos publicitários e suas brilhantes idéias. Pode não haver consumo, se não há uma extensa campanha publicitária para servir de escopo ao produto.

O que é a Coca-Cola? Prescindindo de teorias conspiratórias, o fato é que a Coca-Cola já não é mais um refrigerante, é uma marca. A Coca-cola quer ser o refrigerante de todos os momentos, ou melhor, quer ser seu refrigerante no café, no almoço e no jantar; quer estar com você nas grandes experiências da vida, na balada, nas viagens, no primeiro emprego; nas datas especiais, no natal, na páscoa, no carnaval.

Enfim, beber Coca-Cola não é só consumir um refrigerante, mas está relacionado ao conjunto de signos e estilos de vida que aspiramos ter enquanto consumimos (compramos) tal produto. É a publicidade que faz ser o que essa grande marca é. O que seria desse mero refrigerante sem publicidade?

Refrigerantes, tênis, roupas, geladeiras, carros, cigarros, redes fast-foods, não seriam nada sem a publicidade, sem criar uma “ilusão” de que, de alguma forma, o produto X ou Y é perfeito para você, que ele vai te deixar livre, feliz, satisfeito, etc. E para atingir seu público-alvo (target), a publicidade realiza os mais variados tipos de pesquisas de marketing, a fim de reunir informações cada vez mais precisas sobre seu consumidor.

Antes que pensem que estou enchendo a bola dos publicitários, eu pergunto: há algum produto que não precise de uma extensa campanha publicitária para ser vendido?

Quando uma editora escolhe publicar determinados autores, o retorno financeiro não é a único critério a ser levado em consideração. Há um outro critério, a qualidade. É claro que há livros de auto-ajuda, romances comerciais, esoterismo nas livrarias. Mas também há Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, autores que com certeza não dão lucro às suas editoras, mas estão lá, grandes clássicos da literatura nacional.

Se o único critério fosse o de “vendas” não teríamos esses e outros excelentes escritores sendo publicados no Brasil.

Bons livros sempre serão comprados por bons leitores. No entanto, um bom leitor não se “fabrica” simplesmente com apelativas frases em outdoors em beira da estrada. É um processo lento e difícil. Fábio Sá Earp e George Kornis[1] resumem bem essa questão, dizendo que “não há nada mais caro que produzir um leitor”.

De fato, “produzir um leitor” no Brasil é algo complexo, são necessários uma boa educação e programas de incentivos à leitura, enfim, tudo que os nossos governantes sabem e não colocam em prática. E quem mais perde são os próprios brasileiros, vítimas de uma imensa lacuna cultural construída pela história.

Um bom leitor do Brasil comprará livros independentemente de sua publicidade. Afinal, como o marketing pode convencer a massa de que “Crime e Castigo” é uma obra-prima e deve ser comprado? Imaginem os slogans...

“Leia ‘Crime e Castigo’, e tenha um senso apurado das conseqüências de seus atos!”

“Dê um Volta ao Mundo em 80 dias com Júlio Verne.”

Enfim, antes que meus exemplos se tornem mais toscos, não há como criar promessas ilusórias com o produto livro. O livro tem efeitos subjetivos, não há como simplificá-los em uma frase de cinco palavras. Um livro pode mudar a vida de alguém assim como pode não fazer a mínima diferença para outros.

É claro que a publicidade tem favorecido, e muito, o mercado editorial. É um incentivo à leitura, um alicerce, sobretudo para um público não-leitor. A publicidade é uma espécie de tapa-buracos, não a solução. O livro não depende dela. O livro ainda respira porque é alimentado por aqueles que são amantes do conhecimento, cada vez mais escassos.



[1] EARP, Fábio Sá; Kornis, Geroge. A Economia da Cadeia Produtiva do Livro. Rio de Janeio: BNDES, 2004. Se você mora no Rio, este livro pode ser retirado lá no BNDES no Centro (Av. Chile, 100), ou em pdf no site www.bndes.gov.br, na parte de publicações.

domingo, 6 de abril de 2008

Choque Cultural


Dizem que o livro é caro, mas...


O Globo - 23/03/2008 - por Fellipe Awi
"Considere-se privilegiado o leitor que, ano passado, foi ao cinema, ao teatro, a um show de música, a uma exposição de arte ou simplesmente leu um livro em casa. No Brasil, ele pertence a uma minoria. Mais da metade dos brasileiros não realizou sequer uma dessas atividades em 2007. É o que mostra pesquisa encomendada pelo Sistema FecomércioRJ.

Do total de entrevistados, 69% disseram, por exemplo, que não leram nenhum livro ano passado. A falta de hábito foi o motivo alegado por 58% dos entrevistados das classes D e E, apenas 1% a menos que os das classes A e B. Apontado por muita gente como o maior vilão dos consumidores de cultura, o preço dos ingressos ou dos livros perdeu de longe para dois problemas ainda mais preocupantes, uma vez que demandam mais tempo para serem solucionados: a falta de hábito e o desinteresse."

domingo, 23 de março de 2008

Renato Russo: O trovador solitário

Arthur Dapieve

Não sou muito fã de biografias, mas esta despertou um interesse particular não só pela personalidade em questão, enigmática e símbolo de uma geração, mas também pela forma com que foi escrita e editada, parte que, a meu ver, é igualmente importante.

Com um estilo agradável e objetivo combinado com a paixão de um fã, Arthur Dapieve faz um passeio pela vida de Renato Manfredini Jr, o ícone que se sentia desconfortável com o título de novo “porta voz da juventude”. Sua vida e história, sem dúvida alguma, impactaram o rock brasileiro nos anos 80, servindo de marco para uma geração coca-cola.

Cada capítulo da vida de Renato Russo refletia profundamente em suas letras. O livro soube captar isso muito bem, não deixando de relacionar as letras das canções – principalmente as mais famosas – com o momento vivido por Renato e pela Legião Urbana. É quase uma leitura musical!

O livro Renato Russo: O Trovador Solitário, além de acompanharmos a trajetória deste artista fundamental para a música brasileira, reúne ilustrações, fotos marcantes e sua discografia completa. O projeto gráfico é magnífico, só nos dá ainda mais vontade de ler.

Ediouro, 2006

segunda-feira, 17 de março de 2008

Saraiva compra Siciliano

“A Saraiva anunciou a compra de 100% das ações do grupo Siciliano. Segundo o diretor-presidente da Saraiva, Marcílio Pousada, a empresa vai pagar R$ 60 milhões pelo negócio e ainda assumir a dívida líquida (não auditada) da Siciliano, no valor de R$ 13 milhões. A negociação, que vinha se desenrolando desde agosto de 2007, inclui as atividades editoriais do grupo, com os selos Arx, Futura, Caramelo e ArxJovem, e também um site de comércio eletrônico.

As 63 lojas Siciliano –52 próprias e 11 franquias – passam a integrar a rede de livrarias Saraiva, que em dezembro de 2007 tinha 36 lojas próprias. Ao todo, a Saraiva passa a ter 99 livrarias, na maioria dos Estados brasileiros.

A compra da Siciliano pela Saraiva reforça o movimento de consolidação entre as livrarias brasileiras. Juntas, as duas redes serão responsáveis por cerca de 20% da venda de livros do País, um mercado que movimenta R$ 3 bilhões por ano.”

Fonte:
http://www.abrelivros.org.br/abrelivros/texto.asp?id=2976

...

Uma única empresa dominando os principais pontos de vendas no país pode não ser tão favorável para as editoras, cujo poder de barganha tende a diminuir. Editoras pequenas então, nem se fala!

O que será dos pequenos livreiros quando uma megastore como a Saraiva oferece descontos de 20% a 40% no preço final do livro? Sem dúvida, concorrência desleal. Talvez teremos mais “livreiros assassinos” no Brasil...

domingo, 16 de março de 2008

O mal-estar da pós-modernidade

Zygmunt Bauman

Considerado o teórico da pós-modernidade por Anthony Giddens, Zygmunt Bauman analisa o mundo contemporâneo e suas conseqüentes mazelas, prometendo causar o mesmo impacto quando do lançamento do divisor de águas do mundo moderno: O Mal-estar da Civilização, de Freud.

Não é por acaso que o livro se intitule O mal-estar da pós-modernidade, uma vez que o paralelo com a grande obra de Freud é recorrente ao longo deste, em que uma inquietante pergunta se torna freqüente: Será que ainda podemos revisitar os argumentos freudianos para explicar as contradições dos dias hodiernos?

Publicado pela primeira vez em 1930, em Viena, O mal-estar da Civilização foi revolucionário na sociedade tradicional da época, pois postulava que o excesso de ordem e segurança da civilização moderna exigia muitas renuncias ao indivíduo, constituindo-se em obstáculos à felicidade. O mundo civilizado e suas instituições, segundo Freud, impunham restrições do agir das pessoas, e essa coerção privava-as de ter a tão almejada liberdade.

“A civilização se constrói sobre uma renúncia ao instinto”, assim dizia Freud. A civilização “impõe grandes sacrifícios” à sexualidade e agressividade do homem, e isto era, para Freud, o que nos fazia sentir o mal-estar, ou seja, o empecilho à satisfação individual.

Passados mais de setenta anos, a liberdade individual reina soberana nos dias atuais, “é o valor pelo qual todos os outros valores vieram a ser avaliados e a referência pela qual a sabedoria acerca de todas as normas e resoluções supra-individuais devem ser medidas”, nas palavras de Bauman.

A desregulamentação é a ordem da vez. Vivemos em uma época líquida, em que os pilares da civilização moderna foram derrubados em favor de um crescente hedonismo. “O reclamo de prazer, de sempre mais prazer e sempre mais aprazível prazer” é o nosso objetivo supremo, sacrificamos a ordem e a tradição por ele, não há mais limites nem morais nem civilizatórios que impeçam essa busca.

Então, será que agora só nos resta gozar a liberdade e a felicidade das quais nos fala Freud?

O mal-estar da pós-modernidade tenta explicar o que tem ainda gerado desconforto no mundo atual, imperando um individualismo excessivo, um consumismo desenfreado, enfim, uma era de incertezas e fluidez, relacionamentos humanos frios e inconstantes.

Por isso, o filósofo polonês merece destaque nas salas de discussão das universidades e também nas prateleiras de leitores não-acadêmicos.


­­­­­­­­­Zahar, 1997
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Bauman foi considerado pela revista “Entre livros” um dos 7 filósofos imprescindíveis para este milênio. (Ano 3, nº 31)

www.revistaentrelivros.com.br

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Fragmentos de um discurso amoroso

Roland Barthes


As palavras nunca são loucas (no máximo perversas), é a sintaxe que é louca (...)

Roland Barthes

O que é o amor? Indagação nada fácil de responder, poetas e românticos de todos os tempos se esforçaram e se esforçam para alcançar ao menos um resquício do que venha a ser Eros. Roland Barthes aposta então em outra pergunta: Como o amor se apresenta quando ele é comunicado? Isto é, quando está infundido num complexo emaranhado de estruturas e fórmulas que é a linguagem?

Roland Barthes, em Fragmentos de um discurso amoroso, pretende investigar o amor – ou a condição amorosa – no ponto de vista do discurso. A carta de amor, as declarações, são formas de tentar pôr em palavras um sentimento sublime e quase imperscrutável, por isso que o discurso amoroso é, muitas vezes, contraditório, exagerado, louco.

Para incorrer nesse desafio, Barthes, como ilustre intelectual da França de 1968, escolhe um método “dramático” na sua escrita, renunciando a exemplos e substituindo a simples descrição do discurso amoroso por sua simulação, desenvolvendo-se em primeira pessoa, o “eu” amoroso, posto que o livro todo é uma enunciação, e não uma fria análise. É alguém (o amante) que fala de si mesmo e do outro (objeto amado), que não fala.

Para compor o sujeito apaixonado, o semiólogo também se vale de inúmeras e preciosas referências, que acompanham essa enunciação ao longo do livro. As citações a Werther de Goethe norteiam todo o discurso, ao lado de textos clássicos como O Banquete de Platão, além de consagrados escritores – Proust, Flaubert, Balzac, Baudelaire, Stendhal – e filósofos – Freud, Sartre, Lacan e Nietzsche. Há também o que Barthes recolheu em conversas com amigos e experiências de sua própria vida.

Abordando de maneira criativa um tema considerado démodé para a intelectualidade da época, Fragmentos de um discurso amoroso é livro obrigatório para aqueles que se interessam por literatura, lingüística, filosofia e, é claro, amor.